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TURN
ME ON
(2008)
Curadoria
| inter-face / Arte Contemporânea:
Bruno
Marques, Israel Guarda,
Ivo André Braz, José Oliveira
Pavilhão
28, Centro Hospitalar Psiquiátrico
de Lisboa
13
a 30 de Dezembro 2008
Exposição
de videoarte organizada no âmbito
da Número 2008 | Interface(s)
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It is not the art object that
is exhibited in the museum, which should be enlightened, examined, and
judged by the museum, as in earlier times; rather this technologically
produced image brings is own light into the darkness of the museum
space – and only for a certain period of time.
BORIS GROYS, Art Power , Cambridge/London, Mit
Press, 2008.
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Através
de um processo de selecção, de um deslocamento para um espaço
delimitado, e de mecanismos expositivos e interpretativos o museu
assumiu-se
como lugar, real e metafórico, de visibilidade e luminosidade, ecoando
a
herança das Luzes e prolongando-a até ao white cube.
De entre as diversas
alterações que o século XX introduziu ao nível dos media
e dispositivos
artísticos, o vídeo diferencia-se ao trazer a escuridão para estes
espaços de
luminosidade. Ou seja, ao apresentar uma luz própria que requer a
escuridão em
redor, o vídeo parodia, através dos requisitos técnicos que lhe são
próprios, a
aspiração iluminista da instituição. A necessidade de "estar
ligado"
assinala este potencial crítico subjacente ao vídeo.
Turn
me on
é também uma expressão ambígua, com uma carga semântica associada ao
desejo – “excita-me” – que ajuda a compreender o
estatuto contemporâneo
da imagem e, em especial, da imagem em movimento. Ao longo de diversos
séculos,
a imagem constituiu, na cultura ocidental, um mecanismo de corte na
totalidade
da vida, permitindo a inscrição da cultura no contínuo do real. As
possibilidades tecnológicas dos dispositivos industriais e
pós-industriais
permitiram a mobilização daquele que era um modo de fixação. Deste
modo, as
imagens reaproximam-se do fluxo da vida e assumem uma mobilidade
desejante. No
espaço expositivo o vídeo através dessa dimensão cinemática - mas
também
mediante a relação luz/sombra e a dimensão sonora - gera um lugar
especial de
atracção sobre o espectador, contrariando uma possível
despotencialização da
arte. Ou seja simultaneamente aproxima-se e distancia-se de uma
sociedade
pós-espectáculo caracterizada por uma estimulação generalizada.
A
presente exposição
justifica-se
em termos contextuais, integrando o conjunto de iniciativas do Número
2008 /
Interface(s). Neste sentido não procura ser uma mostra
representativa quer
em termos temáticos, quer em termos geracionais, embora um núcleo
significativo
dos artistas apresentados seja da década de 90 – João Tabarra,
Alexandre
Estrela, Miguel Soares, José Maçãs de Carvalho, Pedro Cabral Santo.
Considerámos, ainda, importante integrar dois nomes responsáveis pela
introdução da vídeo art em Portugal – Ernesto de
Sousa e Julião Sarmento
- assim como três representantes da geração de 2000 - Paula Roush,
Maria
Lusitano e Susana Mendes Silva - e dois artistas emergentes – André
Bastos e
Artur Moreira.
No
limite o objectivo da exposição é o de deixar
circular as vozes dos
espectadores e do próprio vídeo, condensadas na expressão “TURN ME ON”.
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Inter-face [Bruno Marques, Israel Guarda, Ivo Braz, José
Oliveira]

Alexandre
Estrela (n.1971)
O
Nível
do Mar,
2006
Instalação Vídeo, aparelho de nível, vídeo transferido para DVD, cor, s/som, sem fim, dimensões variáveis Cortesia do artista.
| É do senso comum que o nível zero corresponde ao
nível do mar. No entanto, existem zonas de grande profundidade que
alteram este
dado, podendo estas criar depressões na superfície do
mar. Nesta
instalação é um aparelho laser, usado para traçar níveis, que força uma
imagem
de mar a uma depressão, de forma a fazer coincidir o seu traço laser à
linha do
horizonte marítimo. (Alexandre Estrela) |

André
Bastos (n.1982)
Corredor
no Túnel,
2008 Instalação (MDF, manga de plástico, sensor, computador, projector) Cortesia do artista.
| Formalmente
referenciando as obras pioneiras de
Bruce Nauman, “Live-Taped Video Corridor” (1969-70), e “Going Around
The Corner
Piece” (1970) - no sentido do uso claustrofóbico do espaço, e de
circuito
fechado sem princípio nem fim – a obra de André Bastos faz uso da
sedução para
atrair o espectador a um espaço isolado ficando entregue a si próprio e
levando-o, consequentemente, a um engano. As estratégias de
interpelação do
espectador, através da sua participação activa (a obra só existe em
função da
sua presença) são paradigmas que têm a sua origem na dimensão
performativa das
mesmas, aqui aproveitada para questionar os mecanismos da percepção, e,
de uma
maneira metafórica, experimentar a repetição e isolamento, num ambiente
deceptivo. (J. O.) |
Artur Moreira (n.1967)
Came, 2008
Vídeo, cor, som, 22’ Cortesia do artista.
| Um
sujeito afasta-se num percurso linear e
objectivo até ao fundo de um corredor, apenas ouvimos um ruído de fundo
produzido pelo carrinho que empurra. No fim do corredor percebemos que
o
sujeito é o artista, que agora se aproxima na nossa direcção, sobre o
carrinho
e empurrado por um sujeito incógnito. Neste trajecto inverso
interpela-nos um
discurso, imperceptível no início, mas depois claro: “masturbei-me… na
Dinamarca, Paris, Lisboa – Portugal...”. Instala-se neste curto
instante a
provocação, mas num tom cru, frontal, quase inocente, como todo o
desenrolar da
história, potenciado quer pela rudeza do espaço e das imagens, quer pela analogia caricata do
facto de o artista ter sido marinheiro.
O artista ritualiza assim
no seu corpo o confronto com o outro e a auto-ironia. (I. G.) |
Ernesto
de Sousa (1921-1988)
Apontamento
sobre o mixed-media
“Nós Não
Estamos Algures”,
1969 Editado em DVD por José Oliveira a partir dos registos originais, p/b, Som, 5´04” (2008). Cortesia: Isabel Alves
| Antes
do aparecimento do vídeo, o cinema
experimental, a projecção de imagens fotográficas e grafismos, a
performance, e
a música improvisada, eram alguns dos meios utilizados pelas
neo-vanguardas dos
anos 60. Com preocupações ligadas à comunicação e participação do
público, Ernesto
de Sousa conjugou todas estas valência naquela que se pode designar
como a
primeira obra de “mixed-media” em Portugal - “Nós Não Estamos Algures”.
É
também a Ernesto de Sousa, em colaboração com o Goethe Institute, que
se deve o
primeiro encontro em Portugal (Janeiro de 1976) para a apresentação,
crítica, e
debate, da vídeo-arte, mostra que incluiu obras de Richard Hamilton,
Wolf
Wostell, Joseph Beuys, Rebecca Horn e Alan Kaprow entre
outros. (J. O.) |

João
Tabarra (n.
1966)
O
Encantador de Serpentes, 2007
Projecção vídeo, cor, s/som, 5'10'' Cortesia do artista.
| No
não-lugar de uma paisagem de subúrbio um homem
luta com uma mangueira, num confronto que o loop
torna infindável. Assim descrito este vídeo remete-nos imediatamente
para o
universo de João Tabarra, onde a ironia e o absurdo abrem fissuras na
malha
rígida do real. Entre a potência, que a mangueira assinala, e
a
impotência de um personagem a meio caminho entre D. Quixote e Buster
Keaton, o
Encantador de Serpentes dirige o processo de desconstrução para o
sujeito
auto-suficiente e auto-fundamentado da modernidade. Podemos ver aqui
uma
abordagem irónica da habilidade oficinal, da relação, que a tradição
tornava
segura, entre o artista e os seus utensílios, e, por conseguinte, da
hiperbolização da subjectividade contida no sujeito criador. Mas
podemos
igualmente recordar o burlesco dos primórdios do cinema e rirmos,
conscientes
ou não de que estaremos a rir de nós próprios. (I. A. B.) |

José
Maçãs de Carvalho (n.1960)
Video
Killed the Painting Stars, (Newton)
#8, 2007 Vídeo, cor, 5´ 58”, loop Cortesia: Galeria Solar/Curtas de Vila do Conde e Galeria VPF Cream Art
| A
televisão está para a rádio assim como o vídeo
está para a pintura. Era o que se poderia deduzir da modificação,
operada por
José Maçãs de Carvalho, ao título de um êxito “pop” de 1979, dos
“Buggles” -
“Video Killed the Radio Star” - em
que
se narra a carreira de um
cantor da
rádio encurtada pelo aparecimento da televisão. Porém, no caso da obra
de José
Maçãs de Carvalho, o vídeo funciona como registo da passagem de uma
fotografia
a “pintura”, através da destruição/manipulação de uma imagem
emblemática de
Helmut Newton - “Self-Portrait With Wife and Models” (1981) - que faz
justamente referência à pintura “Las Meninas” (1656), de Velásquez,
através de
uma composição cuidadosamente elaborada
no âmbito do seu universo particular. A retenção do olhar que olha o
fotógrafo
(mulher de Newton) é o elemento mais significativo que permanece na
obra, que
resiste, e é testemunho da transformação operada. (J. O.) |

Julião
Sarmento (n.1948)
Dirty
Diana, 2003 Vídeo transferido para DVD, cor, som, 11’24”17Fr Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art
| No
atelier
do artista uma mulher performa um strip-tease
para um “ausente”. O espectador, adoptando
esse olhar, ocupa o espaço dessa
ausência como "intruso". O diferimento espacio-temporal intrínseco ao
medium despoleta um deleite
desconstrangido, porque fora da normal visão
da circularidade pública. Mas na partilha do espaço com outros
visitantes,
somos assaltados pela consciencialização da vergonha do olhar
indiscreto (Sartre).
A deslocação da responsabilidade deste olhar sobre o espectador resulta
num desvelador
incómodo: escravizado pela compulsão de
continuar a ver,
torna-se vítima do seu próprio
olhar. No processo de auto-consciência que desmonta o processo
voyeurista,
sentimo-nos assolados por uma alteridade súbita de papéis ante uma
imagem que
atrai e reflecte o olhar que a olha. (B. M.) |

Maria Lusitano dos Santos (n.1971)
The Man with an Excessive Memory, 2005 Video, cor, som, 10’ Cortesia da artista.
| Maria
Lusitano dos Santos trata o caso do João
Maria, uma pessoa com excesso de memória, curiosamente vimos nela
fortes
analogias com o personagem Ireneo Funes, de Jorge Luís Borges, que
sofre da
mesma patologia. Ambos vivem reclusos duma realidade suspensa, perdendo
a
capacidade de processar novos acontecimentos, contudo nesta
transitoriedade têm
capacidades extraordinárias de relembrar com detalhes meticulosos uma
data
precisa no tempo. Neste incessante processo de retenção e acumulação de
informação, Maria Lusitano procura recriar uma narrativa sobre este
homem,
rescrevendo através da palavra e imagem um filme onde explora os
meandros deste
caso, que também pode ser em certa medida o caso do sujeito
contemporâneo, mas
neste contexto levado ao extremo. (I. G.) |

Miguel
Soares (n.1970)
Your
Mission is a Failure,
1996 VHS transferido para DVD, cor, som
| A
esteticização generalizada, de que os jogos de
computador são um exemplo, assinala ironicamente a realização invertida
das
aspirações vanguardistas de uma transformação da ética pela estética.
Your
Mission is a Failure ecoa esta situação não apenas no seu título.
Miguel Soares
regista, e traz para o contexto da arte, actividades que desenvolveu no
âmbito
de dois jogos de computador, Dark Forces e Duke Nukem. As dimensões
apropriacionistas e performativas, que no contexto das vanguardas
serviam o
propósito de ligar a arte e a vida, são aqui desviadas para uma lógica
própria,
que é a lógica do jogo. Contudo, assumir que a virtualidade tem uma
ontologia
própria não é a negar a realidade. É compreender que a realidade
mudou. (I. A. B.) |

Paula
Roush (n.1971)
Persuasive
probes (1- space captology),
2008 3 elementos (escultura cinética, câmara cctv, plasma) Cortesia da artista.
| Paula
Roush conjuga uma pequena escultura cinética
de um satélite com o aparato tecnológico de uma câmara cctv, explorando
o
universo visual das missões espaciais internacionais. A citação da captology de B. J. Fogg, ou seja, da
análise do modo como as novas tecnologias alteram o nosso modo de agir
e de
pensar, é aqui deslocada para o contexto artístico, retomando uma
questão
fundamental da história da arte: qual a ligação entre a arte e a
realidade?
Perante a fragmentação de um real fortemente mediatizado, a imagem
deixa de
apresentar um défice ontológico e passa a fundamentar-se a si mesma,
remetendo
apenas para o próprio processo de proliferação imagética. Porém, na
nossa
sociedade pós-espectáculo, torna-se igualmente o lugar onde podemos
repensar a
relação entre o sujeito e o mundo. (I. A. B.) |

Pedro Cabral
Santo (n.1968)
Enjoy
the game - you were enlisted by the star fleet.
(Help me to understand that only
a few things really
are necessary in life. ...),
2005-06 Video, cor, som, 9`. Planos vídeo, loop; radio. Cortesia do artista.
| Pedro
Cabral Santo mostra-nos uma imagem do espaço
astral em curtas sequências repetidas, cruzadas por um flash de luz
colorida,
dando a sensação de deslocação e reposicionamento. Sobre este fundo
corre
rapidamente um genérico que nos retém a atenção, mas só passado algum
tempo é
que conseguimos perceber alguns nomes aí contidos - Nintendo, Fun
Games, inc,
Universal - entre muitos outros. Estamos perante uma mensagem cujo
tempo
desconhecemos, enviada porventura através de uma frequência rádio do
futuro,
como nos parece sugerir o ruído de fundo. Esta descontextualização
espacio-temporal
produz uma sensação de estranheza para nos levar a entrar no jogo,
envolvendo-nos nos meandros do desassossego e a questionar o carácter
irrisório
da realidade em processo de devir. (I. G.) |

Susana
Mendes Silva (n.1972)
Ritual,
2006 Vídeo, PAL, cor, som, 5' 49" Edição de 3 + 1 P.A. Cortesia do artista.
| No
“Transtorno Obsessivo-Compulsivo” o paciente é recorrentemente
assediado por pensamentos de natureza obsessiva, que embora absurdos
encontram
temporariamente alívio em determinados comportamentos ritualistas.
Vemos um
exercício de aprendizagem de memorização, como um castigo auto-imposto,
reportável ao ensino primário. Para
além do carácter penoso (e entediante) da acção, directamente
transferido para
o tempo de recepção videográfico, a audiência é levada a acompanhar o
desenrolar do evento através do alinhamento com o ponto de vista de
quem o
performa. A projecção estrutural funde-se com a esfera psicológica
quando
compreendemos que o olhar é reflexo de uma acção compulsiva que nos
espelha. A
repetida sobreposição da frase inscrita desemboca numa ilegibilidade
que pode
ser tomada como correlato de “esquecimento”. Metáfora de
resistência/recalcamento perante uma realidade assombrosamente
familiar. (B. M.) |
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